domingo, 29 de setembro de 2013

call center

Ela disse-me ao telefone que tem a ver com o presente, essa dificuldade da memória. Percebi logo ao que ela se referia: eu também tenho sempre comichão nos joelhos, nos ombros, na cabeça, quando me obrigam a ficar sentada, de frente para qualquer coisa. É assim que sei se estou aqui - se ouço ou não o tique taque do relógio da vizinha. Por exemplo, não sei como me lembrei esta manhã de um homem. Ele estava sentado ao meu lado, era negro, e eu tinha vinte anos. Estávamos numa acção de formação para um qualquer call center. Por mais que me esforce, não tenho quaisquer outros dados que me permitam iluminar este momento, ver-lhe a cara. Só sei que ele me falou imenso do Edward Said, e que desde então eu imaginei um Edward Said tão negro quanto ele. O namorado da época, lembro-me, escandalizou-se com o encontro, pediu explicações, exigiu distâncias - que merda é esta, um preto num call center a falar-te de cenas que eu nem sei? Sim, havia um papel com o número de telefone. Não sei onde o pus.