domingo, 10 de novembro de 2013

7 ½

Antes eu sentia que os meus sonhos me atraiçoavam. Toda a confiança que a luz me trazia, a noite vinha roubar. Os meus sonhos eram de tal forma indecorosos que eu acordava, não raras vezes, aos gritos. Agora os sonhos são outros. Labirintos, casas, andares, objectos psíquicos trabalháveis. Estou menos cão. É como se, durante a noite, houvesse obras na minha consciência. E os sonhos são o barulho das máquinas, as gargalhadas dos homens que seguram as pás, as luzes potentíssimas que trazem para os guiar, os sacos de pedras que arrastam, os canos e os cabos à mostra, os buracos no chão. De noite isto é um festival de claridade. E quando acordo, quando regresso destas visões, sei que não sou a mesma, que não me levanto igual a ontem e que essas oito horas de centrifugação de imagens e de aparente caos, não são menos que uma respiração, uma viagem de oxigénio e dióxido de carbono, um scan disk completo. 
Não procuro compreender os sonhos. Não lhes vou aos dentros, não lhes descasco os símbolos nem lhes tento o toque. Talvez por sentir que tudo funciona com relativa autonomia, que sem instruções o corpo se organiza para me limpar e nutrir, que a cabeça sabe quando deve doer e quando deve brilhar, que os rins não têm dúvidas existenciais, que o ar não pára para escolher o caminho. Tudo em mim quer seguir o seu caminho - menos eu, que quero perceber o que não se pode perceber, que quero dizer o que não pode ser dito e ver o que nunca foi visto. 
Confio nestes sonhos que desalojam a lógica e impõem montagens duvidosas. São mau cinema, este sonhos em que se empilham factos, suspeitas e possibilidades e onde se transforma o preto no branco, o simples no obscuro, o absolutamente indiferente no central. Têm a enorme vantagem de não passar no Indie.