sexta-feira, 15 de novembro de 2013

a luz

ia na rua a pensar em unhas de gel e nas pessoas que se vêem a si mesmas como criaturas absolutamente especiais e depois pensei que se isto fosse um filme do Cassavetes talvez eu pudesse ser uma criatura absolutamente especial

ia na rua e pensava que as pessoas que pensam em si mesmas como portadoras de alguma espécie de luz (clarividência, curadoria, -logias várias) são de todas as mais irritantes

e ainda na mesma rua pensava que, havendo a remota possibilidade de me ver a mim mesma com qualidades - e não no sentido de atributos - qualidades que me conferissem alguma espécie de poder (Le Bateleur), isso obrigar-me-ia a estar de uma forma diferente em cada ângulo de vida onde há séculos instalei um sofá (cf. Miguel-Manso do futuro)

esta rua é uma representação

eu tinha sonhado com um escritório da infância, versão revista e aumentada, oniricamente comprovada. no meu sonho, o lugar da parede era agora a porta e não me espantava nunca tê-la visto, embora ela sempre ali tivesse estado - não vou dizer à minha espera

todas as portas são uma criação / todas as pessoas são criação / e todas as pessoas são portas.