terça-feira, 5 de novembro de 2013

Faz parte do meu modelo de organização a corrupção do mesmo, isto é, faz parte do meu bem estar sentir que tenho as coisas controladas (sei o que vou fazer para o jantar, ainda que o lume esteja apagado) no momento em que estou a deixar que se descontrolem. Agrada-me, posto isto, chegar a casa pensando no fogão mas, em vez disso, sentar-me ao computador. Do mesmo modo que me agrada não ter de falar, enquanto encho o copo de um tinto da pior espécie e acendo o quarto, ou quinto, cigarro. Alimento o filho a bolachas de maçã e soja, marca branca, não dispo sequer o casaco. Rememoro: o acordar de um sonho confuso onde o soalho range e o tecto é alto de mais; pulsões perversas tornadas potencialidade literária; a comoção da aluna que sai de uma intuição ao jeito Franny nacional para uma razão São Tomás de Aquinamente mal percebida (viva a sala da banda desenhada da Fnac - e que se escreva «nem uma caneta ela comprou»); a sinalética permanente da psicologia do real; homens que gaguejam; o declínio da admiração; a verticalidade de um casaco verde escuro que ninguém ousa louvar.