terça-feira, 5 de novembro de 2013

perguntou-me pelo bebé

Enquanto tentava não gritar no metro (a minha avó é quase-quase-surda) vi que à minha frente estava a Mónica, a Mónica da Vodafone, que já não via há oito anos e que, como eu, ia a falar ao telemóvel. Como desliguei primeiro, ainda tive tempo de a ouvir falar de uma caldeirada qualquer que tinha prometido fazer. A Mónica, que me deu o único vestido de grávida que usei, que nem sequer era um vestido de grávida, porque ela, como eu, não tinha dinheiro para vestidos de grávida, mas que serviu; a Mónica estava ali, oito anos depois, duas vezes mãe ("as meninas são mais chatas") e ainda mais nova do que eu. E é estranho que o rosto dela tenha reaparecido de forma tão nítida - nós, que nem éramos amigas - enquanto outros rostos, partes de um passado mais recente, me aparecem como completas interrogações. Não me lembro sequer de estar com a Mónica, mas assim que ela falou a voz dela foi-me tão familiar como um disco antigo. Reconheci-lhe instantaneamente a dicção, a entoação, os vícios verbais: e agora, não fosse a limitação das minhas próprias cordas vocais, juro que poderia reproduzir-lhe o falar. Saímos na Baixa-Chiado, eu para a FNAC, cheia de livros para procurar, ela sabe-se lá para onde, algures na linha verde. Não lhe cheguei a agradecer o vestido.