segunda-feira, 11 de novembro de 2013

tudo começou com o amor

Ontem no metro escrevi uma mensagem que não cheguei a enviar. Havia duas razões: a primeira, porque me parecia ingénuo partilhar tão depressa uma ideia forte, mas banal. A segunda, porque é preciso que uma pessoa aprenda a fazer uso dos seus pensamentos, sem precisar do outro para lhes garantir a carne. Às vezes uma pessoa tem medo de perder o que pensa, e por isso fala. Acontece que eu escrevo muitas mensagens pensando numa pessoa e depois decido enviar para outra ou não envio para nenhuma. 

Tudo começou com o amor mas quando dei por mim já era a vida toda. Pensava no que pode significar um homem numa jangada - um homem que não sabe nadar. Da terra, o mar está sempre flat. Não há globo em quarto de criança onde as ondas se levantem, não caem tempestades nos mapas. Então: um homem atira-se ao mar e sente tudo, cada onda, cada brisa, cada pingo de sal, cada mudança ligeira. Não há nada no mar que não seja provisório. Lá, a vista é sempre curta. Por detrás do horizonte há um novo horizonte, ao qual se segue ainda o horizonte. O sol, no Oriente, nasce a Oriente do Oriente? 

Ninguém que morrer nas águas chocas dos fiordes, ou ser sereia em terra, ou marinheiro em Londres. Queremos todos chegar a Banguecoque. É aquela história do navegar é preciso, estás a ver? E, na verdade, ninguém sabe nadar. Era isso que explicávamos ao J. quando ele nos pedia para o ensinarmos a andar de skate: estás a ver esse dedo arranhado? Tens que ter isso muitas vezes para aprender, não há outra forma. E como é que gente tão sábia quanto nós ainda esperneia tanto quando pisa uma agulha, esfola o orgulho ou morde a língua no verbo errado? Dei então por mim a elaborar uma teoria.