sábado, 21 de dezembro de 2013

revolução nenúfar

Disse-lhe que era uma criança-nenúfar muito antes de saber o sentido dessas palavras. Eu não queria, positivamente, ser o que quer que fosse. Estava como naquele poema do Régio: toda não-ir-por-aí. Ser nenúfar era não-ser parte do todo, estar apartada, sem partido. Houve várias coisas em que eu não pensei, por exemplo, Monet. Não me lembrei de Lótus, Brahma ou Ganesh. Não tive em consideração as ninfas nem o nascimento do mundo. Disse-lhe que era uma criança-nenúfar para que ele se risse, e é só. Nenhum de nós deu conta daquilo em que a palavra me transformara - se é que as palavras ainda transformam alguma coisa. Se ficou tão difícil escrever, só pode ser por isso. Um nenúfar não tem mãos nem braços, é todo superfície, flor e rizoma. 

Não me sinto sozinha neste charco indo-europeu onde, desde a Era do Bronze, temos flutuado. Em corrente tão fraca não é raro tocarem as minhas folhas em nenúfares maiores. A todos as abelhas vêm beber: aos anatólios, aos micénicos, aos lisboetas. Não creio noutra coisa: cada nenúfar é um e é todos os nenúfares. Não poderia inverter a ordem desta frase, cultivo assim a minha vontade, o meu carácter botânico. Celebro, pois, as águas de onde nascemos, as raízes nutridas de semelhantes amores, as folhas galilaicas cumprindo religiosamente a lei da queda dos graves (nos lagos artificiais), as azeitonas mergulhadas em barris por três estações - para que as comamos juntos, para que sejamos três, ou mais, sempre uns e outros, nós todos.