segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

dois

é preciso largar tudo o que não interessa, o peso morto do ciúme, essa fascinação, o modo comparatista de sonhar, tema cuja origem antecede a chegada ao porto do amado (ou, pelo menos, do actual) e remonta talvez à descoberta do caminho marítimo para a Índia; e é preciso largar tudo quanto oprime a imaginação. eu, quando sou, tento sempre ser menor. se eu fosse uma árvore acho que seria daquelas que teimam em crescer para o lado, só para dar errado. é isto que eu vejo: uma árvore torta carregada de frutos. é neste apesar que se joga o desafio do sentido, do para quê de mim. a timidez é tão brutal que bom mesmo é verdejar longe. se eu não odiasse a psicologia desatava a falar de auto-coisas. ora, aquilo que procuro é deixar de procurar e ser uma árvore que, crescendo para cima, dá melancias.