domingo, 19 de janeiro de 2014

egoísmo não consumado

Outra das coisas que ele me disse é que eu era uma egoísta frustrada - uma egoísta que não conseguia sê-lo. É muito fácil levarem-me: um café às seis e já fui. Se não for isso é outra coisa qualquer, estou aberta a todos os pretextos. Hoje em dia nem um caderno eu consigo manter, espalho as minhas notas nas costas de panfletos, escrevo em restos de papel, está tudo aos bocados. Duas folhas amarelas com os apontamentos sobre o livro do Bento de Jesus Caraça sobre o Tagore, por exemplo. Na altura interessou-me o que ele dizia sobre a tradição oral na Índia, o carácter divino dos textos a pedir voz para a revelação, ou Chandi Das, o poeta-monge que se apaixonou por Rani e foi excomungado. Anotei tudo isto, e também algumas frases sobre o culto de Krishna. Ao que parece, entusiasmei-me com a relação entre o meio ambiente e o homem, unidos numa vibração comum. Já não me lembrava disto: somos em função do espaço que nos rodeia, entre o particular e o geral; o mar e o deserto são elementos psicológicos da maior importância. Na segunda folha, as últimas notas:

RAM MOHAM ROY
e mais: o pai de Rabindranath Tagore
«não perdi o meu tempo junto de ti. Fizeste-me compreender que se pode ser feliz, mesmo a vender queijos»
foi viver nas margens do Ganges
o homem é muito para o homem
«exprimir a plenitude da vida, na sua beleza, como sendo a própria perfeição»