quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

mercúrio

Tenho pensado muito na linguagem dos astros - hoje, que tropecei em toda a gente, que perdi transportes, que me atrasei e adiantei, todo o tempo a respirar pelo nariz, atentíssima a todas as coisas sensíveis - o que inclui o telemóvel - sem teorizar: o melhor transporte é mesmo o pé. E logo a imaginação, em jeito de plateia, eu sobre mim como se outra: foi a pé até à Índia. As gaivotas sobrevoavam a Rua da Madalena. Ontem, no metro, um pombo que voava desgovernado tocou-me na cara com uma asa. A sensação foi horrível mas depois pensei que podia dizer a alguém que «um pombo que voava desgovernado tocou-me na cara com uma asa» e senti-me melhor. Enquanto observava o voo circular das gaivotas sobre o Largo do Caldas tornou-se-me evidente que os homens não foram feitos para voar nem para nadar - nem para apanhar o metro. Deve ser por isso que não há inteligência que me ensine a esperar quando «uma perturbação na linha azul» me pede desculpa por existir. Saio do buraco e vou a pé. Demoro o triplo da perturbação. Mas eu sei, eu sei mesmo, que é inteligência o que no meu peito me obriga a caminhar. Um homem mais velho poderá compreender-me. São sempre os homens mais velhos quem me descobre a lua. De resto, numa primeira etapa eu sou sempre aquela chata séria que nenhum excêntrico atura. Tens noção de quão mais apurada estou?