sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

mil

cortar a franja, não temer a juventude, não me fazer de mais velha, não deixar que o cabelo seja metáfora de maturidade (nem de falta dela), lidar com o meu cabelo na qualidade de meu cabelo e não de cabelo comparado, cabelo semelhante, parecido, ou qualquer coisa assim. não ter vergonha deste enorme desafio da língua (do coração), mergulhar no Mago, não esquecer o que ele ensina, a arte da corda bamba, a respiração, o fazer sem pensar, eixo norte-sul em trânsito aéreo, entrando pelas narinas como o filho explica à mesa do almoço, oxigénio, dióxido de carbono, brônquios, todas essas artérias, sem pensar. a noite de são joão da cruz. o santo francês caminhando com a cabeça nas mãos. respirar sempre. e escrevo isto meio à toa, muito depressa, hesitando aqui e ali - porque ainda tenho medo


passei toda a semana a pensar nisto, escrevi uma carta a pensar nisto, joguei freecel, spider solitaire, copas, minesweeper a pensar nisto, tudo o que fiz na última semana foi pensar nisto




qual é a origem do medo?





analisei o mais que pude e sempre fui dar a lugar nenhum. não tenho teses para o medo. porque aquilo que uma pessoa tem a perder, uma pessoa como eu, é pouco: é só ela mesma. e eu pensava no que pode significar para alguém a possibilidade de perder-se para si própria,
porque uma pessoa, para se perder de si mesma, à partida não deve estar encontrada consigo mesma
ou talvez tenha trocado a ordem das coisas
talvez tenha dito: eu sou a que vai ser
e tenha acreditado muito nisso - imaginemos que é alguém que leu muita filosofia - talvez tenha acreditado tanto nisso que se encheu de saudades do futuro (isso não é possível, dizia o J. no fim-de-semana)

...


tenho muito medo do que penso
muito medo do que escrevo
não me domino
tenho medo de tudo o que é superficial mas passa a vida armado
as opiniões, a biografia, a experiência
medo da rama que quer parecer raiz

é um medo, suspeito eu, de insuficiência
medo de mostrar o rosto e alguém ver um monstro
aquele sonho do miúdo que vai nu para a escola
medo do ridículo
medo que isto não chegue

para quem?





não desejo para mim nada que não deseje para o mundo. cada dia faz menos diferença, em cada dia eu ponho o esforço de minimizar essa diferença. tudo o que farei em 2014

baixar os ombros e não os braços
expulsar do corpo a tensão que encolhe aperta esconde
libertar-me da espiral de vento (e lixo) que tantas vezes me vem dançar ao estômago
observar as semelhanças
as semelhanças
as semelhanças