quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

outono/inferno

TRINTA E UM

Guardo a memória de uma planta que voava
antes ainda de saber da vida das coisas.
Tudo me leva sempre ao lugar dessa infância
de planta que voa nos olhos vermelhos da mãe
a terra espalhada no mármore esse vaso
cor de tijolo quebrado na pedra da primeira
inundação.

Disseram que eu deixei a torneira aberta
no dia em que a água faltou.



CUI BONO?

Sou o resultado da vingança
de um homem sobre uma mulher.

Eis o novo trabalho de deus
fazer dos bastardos homens.



A SAGRADA FAMÍLIA

Também nas árvores
só se tocam as folhas
quando o vento obriga.




DIETIKON

suponho que se vá tornando cansativo, o tema
não é que no poema não cavalguem comboios
e que, adivinhe-se, mais um dia termine

vem a mãe sentar-se no sofá ligar a televisão
francesa enquanto mastiga de boca aberta
nuggets e rúcula: já lhe faltam alguns dentes
(sabemos lá nós que benefícios
nos virá o tempo tirar)
procura consolo na internet
já que eu não sou grande companhia
tira fotografias aos gatos como em tempos ao marido
a meio de uma discussão

queixa-se do tempo a porra do tempo
e eu agradeço-lhe em silêncio o ter vindo antes de mim
para que eu saiba o que não fazer
e ainda assim o faça