sábado, 1 de fevereiro de 2014

falar tem sido uma forma de existir e, até à data, não conheço outra

Saio do metro a pensar na quantidade de pessoas que hoje deram moedas ao cego. Como se uma onda de contágio propagasse o tilintar das carteiras, o cego agradecendo mais do que pedindo. Africanos, indianos, estrangeiros - todos davam enquanto eu, de cócoras entre duas carruagens, lia distraidamente a vida de Husayn ibn Mansur, o asceta. Não aguentei naquela posição até ao fim da viagem, sentei-me no Marquês. Na Baixa, no transe natural de uma manhã marcada pelas dores da língua, planeei para mim uma cura pelo silêncio: um dia, um dia sem abrir a boca nem dar à tecla. Há uns anos, quando ainda papagueava para a parede deitada num divã de couro, pensava que a resolução feliz dos meus assuntos privados poderia corromper-me a personalidade, tornar-me estranha para os que, apesar desses meus defeitos, ainda resistiam no amar-me. Esta manhã, enquanto meditava (porque caminhar é uma forma de meditar) voltei a ter um medo semelhante: o de que o silêncio me tornasse irreconhecível.

Husayn, de regresso a casa, depois de meditar sobre as suas amizades escreveu "os companheiros que frequento são, para mim, outros tantos véus: falando pouco ou muito, é comigo mesmo que falo: para quê procurar um interlocutor?"

Eu, que sofro sempre mais com o que não consigo do que me alegro com aquilo de que sou capaz, não sou dona das minhas palavras. E sofro. Sofro quando me apercebo que falei de mais, sofro quando não sou exacta, quando não encontro as palavras certas, quando descubro (de forma sempre extemporânea) as palavras que, noutra altura, me teriam servido - mas como, se sou eu que as sirvo a elas?