quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

they shoot horses, don't they?

Ao mesmo tempo que se publicam nos jornais notícias sobre as vantagens das "drogas inteligentes", tomando como exemplo "as grandes mentes de SiliconValley", a National Geographic divulga este mês uma longa reportagem sobre os irredutíveis Kaiapó, habitantes de uma das maiores extensões de floresta tropical virgem incólume no planeta que, depois de um século de maus tratos, estão novamente em crescimento (populacional, meus senhores, não façam confusões).


















Fico a saber da história destes homens, da forma como resistem aos interesses dos garimpeiros, madeireiros, seringueiros e fazendeiros, das suas pinturas corporais com jenipapo, do seu gosto por plumas coloridas e missangas e da sua luta contra o Estado brasileiro (e as hidroeléctricas) no mesmo dia em que leio sobre Kieron Monks, o jornalista que em Londres experimenta um "composto de melhoria cognitiva" - dez comprimidos brancos que chegam pelo correio - só para nos contar como foi. Que sorte. 

Ficamos assim a saber, graças ao metro world news, que desta experiência não vão emergir arquétipos, animais selvagens, avatares, nem qualquer espírito suspeito de significado; não se vai experimentar Deus nem testar nenhum dos seus desdobramentos psíquicos; nenhuma consciência do Cosmos despertará do seu sono milenar; do Todo, nem uma pista. Eis o que o jornalista consegue: permanecer concentrado durante uma entrevista telefónica; escrever um artigo; fazer uma hora extraordinária na redacção "sentindo-se fresco que nem uma alface" e, last but not least não se enervar com os atrasos dos transportes públicos. Se o objectivo era um acesso de genialidade, suponho que tenhamos partido de um patamar muito baixo. 

Já agora, uma das contra-indicações desta "droga" que promete acabar com a mediocridade é a possibilidade de pensamentos ou comportamentos suicidas. A minha pergunta é: deve falar-se com o médico antes ou depois?