terça-feira, 12 de janeiro de 2010

breves notas sobre as ligações (a minha versão)


Para encontrar a loucura na poesia de Hölderloin, Pierre Jean Jouve cita Bernard Groethuysen:
«Era divino esse mundo, e por ser divino sem Deus. O divino não tem nome; só o têm aqueles deuses cujo nome ainda não foi fixado e que às vezes mudam de forma.
A existência é divina; ser divino é ser o que somos. Tudo se resume a isto, em si mesmo muito simples. Tudo o que é só pede que o deixem sê-lo. Só o homem, desconhecedor dos seus limites, não sabe onde fixar-se num mundo onde tudo morre."


MNEMÓSINA

Maduros estão os frutos, mergulhados no fogo, fermentados

E na Terra postos à prova, e vigora uma lei
Segundo a qual tudo no interior desaparece, como serpentes,
Profeticamente, envolto em sonhos, sobre
As colinas do Céu. E muitas coisas
É preciso manter, como sobre
Os ombros o peso
Da lenha. Mas os atalhos são
Adversos. Pois dissociados,
Como cavalos, avançam os unidos
Elementos e as antigas
Leis da Terra. E há uma ânsia
Que sempre impele para o desregramento. Porém muito
É preciso manter. E a fidelidade urge.
Porém nem para a frente nem para trás queremos
Olhar. Deixarmo-nos embalar, como
O barco que no mar baloiça.



«Bernard Groethuysn termina com estas frases admiráveis:
É uma criança a recordar-se. Mas a nenhum de nós é dado saber com muita certeza o que sabíamos quando éramos crianças, e ao mesmo tempo ter a sabedoria profunda dos que acabaram de viver.»

P.S.: Aposto que o Ricardo nem reparou que o tio Blanchot muito aqui é citado, a propósito de Hölderlin.
[Loucura e Génio, de Pierre Jean Jouve, é um livro da Hiena de 1991 traduzido por António Moura. No livro são apresentadas algumas ligações entre (guess what!) loucura e génio (pois) usando como exemplo Torquato Tasso (séc. XVI), Nerval (séc. XIX) e Hölderlin (séc. XVIII).
O poema acima indicado está traduzido no livro de Jouve mas optei pela tradução de Maria Teresa Dias Furtado, retirada do livro Hinos Tardios editado pela Assírio&Alvim no ano 2000.]