quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ela foi a uma entrevista de trabalho

«Estamos sujeitos a muitas coisas. Quando alguém me pergunta, numa entrevista se tenho filhos, devo pensar o quê? O que pensará ela, quando me pergunta Ana, tem filhos? Tratar-me pelo nome, para introduzir esta questão, diz tudo. Ela sabe disso. Pensa: bom, agora vou fazer-te aquela pergunta, que é uma espécie de pergunta chave, chave de qualquer coisa que não sei bem o que é, mas que acaba por ser profundamente misteriosa e cria sempre, algum constrangimento. Aos que respondam, sim, tenho, por tê-los. E aos que respondam não, não tenho, por não entender para que serve a pergunta num processo de recrutamento que não seja para uma maternidade, mas ao mesmo tempo, sentindo naquilo, um peso imenso. Como se, de repente, ter parido, pudesse afectar o cérebro ou a capacidade de movimento, de apanhar transportes públicos, de chegar a horas, de picar o ponto e, mais difícil que tudo isto, ser aceite para um estágio. Se não tem mesmo nada a ver com isto, o que é, de onde vem e para que serve?
Pior, as entrevistas, começam a fazer-me tremer, ficar vermelha. Antes, não era assim.
Mesmo quando, como hoje, pensava: calma, é só uma tipa a fazer-te perguntas parvas, perguntas que ensinam na faculdade, aos alunos de recursos humanos, como indicadores master dos processos de recrutamento, seja para um hospital, para uma mina ou para uma biblioteca. Mas ainda assim, começa a tornar-se inevitável. Incontrolavelmente, a minha cabeça começa a formatar-se para a lógica do agora estas entrevistas são diferentes das outras, porque é para ganhares mais, para assinares um papel e já tens de ter um curso para poder concorrer. Trata-se de um fenómeno estranho, porque a realidade é diferente. As perguntas são exactamente as mesmas. Para a Mango, há uns anos, em modo de fim de estrada, dizia-me ela: Já agora, só por curiosidade, o que fazem os seus pais? Compreendo. Vai de encontro à de hoje, é uma espécie de variante desses indicadores infalíveis sobre a capacidade humana de criar, pensar, produzir, e no caso, arrumar roupa, qualquer coisa inventada para dar um tom de pack entrevista+psicotécnicos.
Depois, penso que ainda vou ter de passar por aquelas entrevistas de 45 minutos (criteriosamente determinados, nos avisos do Diário da República) em que, imagino, queiram saber mais coisas. Se é fértil, se tem mais de cinco nomes, com que idade foi apalpada pela primeira vez, quantas vezes pisca os olhos por dia, alguma vez chamou nomes a alguém, já foi operada às amígdalas, costuma sonhar mais com facas ou com grutas, tem provas de que o seu coração está no lado certo, imprimiu algum certificado que comprove que o seu coração bate mesmo? Se sim, agrafe ao c.v. e envie com aviso de recepção.
E a senhora, do alto da sua qualificação-eu-tenho-os-indicadores-para-te-conhecer-toda, foi fazendo bolinhas à volta das datas das minhas experiências e franzindo o nariz, ao mesmo tempo que me dizia: pois, sabe, é que já tem algumas experiências na área, não sei se estará apta para frequentar este género de estágios. E eu, prontamente lhe digo: sim, eu informei-me hoje mesmo (omitindo o facto de ter estado 3 horas na fila do centro de emprego, com 100 pessoas à minha frente apenas para poder dizer-lhe isto). A senhora continua franzindo o nariz e, pulando por cima da minha manhã de boa vontade, reforça a ideia, porque deve ter qualquer coisa a mais do que eu, no que diz respeito à compreensão gramatical das frases, e diz-me: pois, no caso, teria de falar com o centro de emprego. E ainda me diz, em tom facilitador, de quem me está a fazer um favorzinho: então, mas se Ana me diz, por exemplo, que aceita estes três meses não remunerados, eu digo why not?
Sim, why not!? A minha cura espiritual está algures entre o voluntariado e o acaso.
Não tenho mesmo nenhum sentimento adulto em relação a coisas destas. Ainda mantenho um impulso qualquer adolescente, que me faz ranger os dentes e sentir náuseas. Dizia-me, há muitos anos, um professor de matemática, sobre um caderno meu, por mim adorado, mas que era alvo de chacota pela turma, porque tinha páginas de várias cores e perfumadas: não tenhas vergonha, é muito bonito ser assim.
Já ninguém vê ninguém ser assim. Somos todos conforme aos indicadores. Mais ou menos como o processo de determinação da cor do P.H. nas aulas de físico-química (medíocre menos (-), a pior nota de sempre). Nunca me dei bem com indicadores. As cores, invariavelmente, apareciam-me sempre trocadas.
Só uma coisa: parece-me vergonhoso que existam águias de peluche de vários tamanhos a serem vendidas a 14 euros enquanto me perguntam como sou. Então, eu sou assim

(texto retirado de um blogue)