sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Querido sócio

queria escrever-te um bilhete mas tenho as mãos geladas por isso é mais fácil por aqui. assim, o bilhete até mata dois coelhos de uma cajadada só. ontem, quando ia para casa, estava a pensar no espanto (ou na dúvida) de uma amiga minha perante casamento alheio, de outra amiga, espanto esse causado talvez pela rapidez com que as coisas se decidiram. pela minha parte, tendo descoberto no passado ano que os desígnios do homem são insondáveis, tornando-o tão incompreensível quanto espantoso, não me ocorreu muito que dizer: já não me ocupo a tentar justificar comportamento alheio, a cena agora é só gostar pelas razões que me fazem gostar e deixar de ser a chata que põe a malta a pensar nas grandes-questões-da-vida em pleno bairro alto às três da manhã. se a minha amiga vai casar não lhe vou perguntar (e a pergunta é um néon laranja a piscar na minha cabeça): mas porquê? na verdade, não interessa. ela casará, de qualquer maneira e, com sorte, se eu for simpática, até me convida para os festejos, que são sempre uma óptima oportunidade para uma gaja anti-casório poder brincar às princesas sem remorsos. o amor é eterno enquanto durar. mas onde eu quero chegar com isto tudo é que parece-me ser um dos grandes princípios da minha geração o duvidar da durabilidade das coisas e, por isso, ir adiando o que pensam ser precipitado. mais ou menos como uma torradeira ou um telemóvel, que dura três anos e à primeira avaria vai para o lixo, vai-se vivendo a relação com o mundo. assim, vive-se a uma temperatura muito morna, que, como sabes, me é estranha. e depois pensei em nós, que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não somos casados (esta é o segundo coelho do bilhete), mas temos um compromisso, selado a 6 de Novembro de 2007 naquela coisa da "Empresa na hora", em que decidimos confiar tão absolutamente um no outro que um dos nossos nomes no papel valerá sempre pelo nome do outro. Isto, meu caro, é qualquer coisa. E então mandei uma mensagem à minha amiga dizendo isto: que eu e tu nem nos conhecíamos muito bem quando a Trama surgiu, éramos ex-colegas de trabalho, conhecidos com empatia, e que, por uma razão qualquer, resolvemos fazer isto juntos, tentar, arriscar,
dar o salto no escuro.

E não nos estamos a safar nada mal, pois não?