sexta-feira, 9 de abril de 2010

come on, estão a brincar comigo?

entrego-me à leitura porque estou farta dos livros. mil coisas na cabeça, tudo a ligar-se e a desligar-se, estou intermitente, a livreira pisca, por dentro, segura por fora. nem gosto de falar de mim assim: a livreira. que pretensão, uma miúda que começou qualquer coisa, que está a dar os primeiros passos, que não sabia sequer que havia um tipo chamado Musil, outro chamado Walser, um Mann, um Quignard, e por aí fora. há dois anos eu não sabia ponta. e agora sei o quê? o meu nada ficou ligeiramente menor, é só isso. talvez daqui a dois anos olhe para este agora e diga o mesmo: que não sabia, que não conhecia. então se calhar não sou uma livreira sou só uma rapariga que teve a sorte de ver a vida a descambar e que, como medida desesperada, decidiu abrir uma livraria. e depois as coisas sucedem-se como têm de se suceder. ando com os olhos arregalados durante quase todo o dia porque o dia é passado a encontrar. depois fico com dores de cabeça porque o exercício, tão simples, é duro: mortos e vivos, de manhã à noite, vêm dizer-me coisas.

por exemplo, quando estou na livraria à noite e decido ler um livro infantil sobre Darwin, arregalo os olhos: se não estivesse a ler o Rayuela não ficaria eufórica por encontrar Montevideu. Se não estivesse a ler o Rayuela nem sequer saberia que há um lugar chamado Montevideu. Se não estivesse sentada numa livraria e se não tivesse deixado um livro infantil por arrumar não saberia que Darwin passou por Montevideu. E como estou a ler o Rayuela, como em Rayuela cheguei a Montevideu, como estou na livraria, como pego no tal livro infantil, como descubro Darwin e Montevideu, desço as escadas, de olhos arregalados, para dizer ao Ricardo, que não liga ao meu êxtase, olha, olha, Montevideu, duas vezes em dois livros completamente diferentes, no mesmo dia, tu diz-me lá que isto não é incrível, tudo a levar-me, que bom, just go with the flow, como ainda há pouco eu a ler sobre a Bessie Smith e tu a pores uma música dela, sem falarmos, e claro, hoje dói-me a cabeça, continuo de olhos arregalados, continuo a piscar por dentro, a segurar por fora, demasiado feliz, demasiado juvenil, demasiado apaixonada, demasiado arrebatada, demasiado, demasiado.