terça-feira, 6 de abril de 2010

primeira coisa:

chegando ao fim do alexandra alpha há sinos e anjos que cantam, é uma coisa linda, linda, linda, vocês não estão bem a ver, venho eu no comboio regional de santarém para lisboa (e com um rapazito à minha frente a ler o Para um Teatro Pobre do Grotowski é difícil ficar concentrada) e de repente tudo estaca, juro, como se o comboio tivesse feito uma travagem brusquíssima e na minha carruagem ninguém tivesse dado conta, uma calmaria estranha e quente, meio western, como dizer, a paisagem toda transformada em pradaria, enfim, um eclipse, uma roda dentada que encravou o mecanismo preciso do mundo. começa assim:
«Maria sentou-se ao balcão no sítio onde acabava o estendal de canecas vazias e pousou a malinha e os óculos de sol no banco ao lado. O vulto lia A Bola apoiado numa cerveja a florir de espuma. Era um indivíduo louro e encorpado, um tanto para o gordo; cabeça à meia calva, salpicada dum orvalho que era o transpirar da fresca e esfuziante bebida matinal; mãos mimosas embora sólidas, de anjo camponês (se é que há disso, anjos camponeses). Maria viria a saber que estava na presença do poeta Ruy Belo que só conhecia pelo lido.»