terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda coisa:

«Um apontamento a lápis, quase ilegível: "Sim, às vezes sofre-se, mas é a única saída decente. Chega de romances hedonistas, pré-mastigados, com psicologias. É preciso esticarmo-nos ao máximo, ser voyant como Rimbaud desejava. O escritor hedonista não passa de um voyeur. Por outro lado, chega de técnicas puramente descritivas, de romances «de comportamento», simples argumentos de cinema sem o resgate das imagens."
A relacionar com outra passagem: "Como contar sem cozinha, sem maquilhagem, sem piscadelas de olho ao leitor? Talvez abdicando do pressuposto de que uma narração é uma obra de arte. Senti-la como sentiríamos o gesso que deixamos cair sobre um rosto para fazer uma máscara. Porém, o rosto deveria ser precisamente o nosso.»
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), Cavalo de Ferro, trad. Alberto Simões

(depois de ler isto tive a certeza de que não vale a pena escrever se não for assim e, caso não se consiga, então que não se escreva)