sexta-feira, 28 de maio de 2010

rua coronel bento roma, esquina com a conde sabugosa

a marta vivia em frente à minha avó - vivia com a mãe, o pai e um irmão. de vez em quando ia a casa dela, lembro-me de jogarmos monopólio à noite e de a achar muito, muito mais crescida do que eu. à medida que os anos passavam tornava-se cada vez mais incontornável essa diferença de idades - a marta ficou avassaladoramente mais velha do que eu, embora eu continuasse a crescer. a marta já não brincava, suponho, tornando-se para mim inacessível e, por isso, admirável. quando deixei de a ver a minha avó passou a contar-me as novidades - a faculdade, a ida para os Estados Unidos, o namorado, o regresso a Lisboa. imaginava a marta muito alta, morena e sobretudo muito betinha - é que a partir de certa altura, quando o elevador subia, comigo lá dentro, e lá em cima se ouvia a voz da mãe da marta, eu começava a rezar para que ela entrasse em casa depressa porque sempre, sempre, falhei no cerimonial do beijinho e sempre, sempre, fiquei de pescoço esticado para um segundo beijinho numa segunda bochecha, que nunca acontecia. tudo isto me causava um transtorno inexplicável.

ontem passou por cá uma rapariga que dizia ser a marta, vizinha da minha avó. mas eu não acredito. para começar não era a marta porque a marta tinha para aí doze anos e a que esteve cá ontem deve ter uns trinta. e depois não tinha a cara da marta e era mais baixa do que eu, o que não corresponde de todo à verdade dado que a marta sempre foi mais alta do que eu. esta rapariga não era betinha e, foi aqui que a apanhei, dava dois beijinhos - e a marta verdadeira de certeza que só dá um.