terça-feira, 8 de junho de 2010

um texto com o título certo, cinco letras em cada mão, chegou, chegou, Emília

A TRAMA

Quando ele diz que está perdendo tempo, os outros compreendem o que ele diz. Mas às vezes sucede-lhe sentir que está perdendo tempo – e então ele nada dirá porque os outros não o compreenderão. O dia de hoje passou, por exemplo. Sua surpresa é como se não tivesse pensado no dia de hoje o pensamento que só no dia de hoje viria. O que ele teria pensado ou feito hoje não poderia ter pensado ou feito nem ontem nem amanhã, pois há um tempo de rosas, outro de melões, e não comereis morangos senão na época de morangos. Sentia que havia nele um tempo inadiável correspondente a cada momento. Todo o seu esforço era o de conseguir que essa espécie de hora correspondesse à própria hora que não se perca.

Aliás, percebendo que a expressão perder tempo não explicava, escolheu outra que por um instante correspondeu à verdade: aproveitar a mocidade. Mas só por um instante correspondeu à verdade. Depois aproveitar a mocidade começou a encher-se de um sentido próprio – e ele começou a aproveitar a mocidade, a modo dele, que não era seu. E ele nunca conseguiu explicar de como se perdera em tal trama, a mocidade. A mocidade é mulheres? Não sei.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo