terça-feira, 20 de julho de 2010

se não sabe porque é que pergunta?

Há uma música do Ornette Coleman chamada «happy house» e há uma loja vazia onde me sento a ouvir. Lia outro dia que toda a instabilidade não é mais do que a procura de estabilidade e, por mais simples que este pensamento possa parecer, fiquei durante uns tempos a pensar na minha curta-extensa biografia: nas mudanças de casa, de gostos, de amigos, de estilo, de opções, de ideais, de amores, de objectivos. Fiquei a pensar que o que tenho feito não tem sido mais do que procurar o meu lugar no mundo, o meu lugar perante o outro - decidindo, com pontualidade britânica, que daqui em diante esta sou eu e falhando, com a mesma pontualidade, a cada tentativa. Quem sou como filha, ou como mãe, como amiga, como namorada, como profissional de alguma coisa desde o call center à papelaria sueca, tem estado, qual satélite russo, em constante teste.
Nunca um voo me levou tão alto como a Trama: a sensação de pertença, de estar no sítio certo à hora certa, de finalmente descobrir uma identidade e ficar quase satisfeita com isso.

Quando passei nesta rua na quinta-feira passada deparei-me com uma montra coberta de papel pardo e, no vidro, um tag feito com uma trincha. A tinta, branca, escorreu desde a assinatura até ao parapeito antes de secar. O meu parapeito. E então percebi a ironia destas merdas: eu, que entre os catorze e os dezasseis chamei a mim mesma Pur, eu que pintei nos muros das linhas ferroviárias, em pontes, em prédios abandonados, eu, que pus a minha mãe com uma lata de spray a escrever Filomena na parede do meu quarto, levei com este tag na montra da minha livraria, um tag na minha testa.
Um homem, à minha frente, corta a água da Trama e eu fico cheia de sede. Ele não sabe, eu não quero que ele saiba, tu, leitor, não sabes. Já está, em menos de três dias morro. E tudo isto é muito teatral porque eu não sei sofrer - o contador foi retirado com a leitura de duzentos e dezanove metros cúbicos.

Eu estou bem, obrigada.