sábado, 29 de janeiro de 2011

da gestão da montra

De vez em quando há quem nos peça que coloquemos certo livro numa das nossas montras - seja ela a da loja, seja esta, mais virtual, do blogue. Quem faz estes pedidos não o faz por mal - é certo que um livro que esteja à vista é um livro que mais facilmente venderá e um autor precisa de ver os seus livros vendidos. O problema é que estes pedidos encostam-nos à parede: queremos ser afáveis e delicados mas não gostamos que nos digam como se arruma a nossa casa. É assim com qualquer pessoa: quem é que gosta de ter uma sogra a colocar a moldura preferida sempre em cima da televisão?

Se não é por mal que nos pedem este destaque, também não é por mal que nem sempre o damos - na verdade, na nossa casa só fazemos aquilo que queremos. A grande diferença é que esta casa tem as portas abertas a qualquer pessoa e se a moldura que a sogra deu não estiver em cima da televisão não há como disfarçar, é como se ela tivesse a chave de casa e a qualquer momento pudesse descobrir a grande desfeita que lhe fizemos. Nós temos, apesar de tudo, de correr o risco. Talvez esta sogra saiba um dia respeitar o nosso espaço.

Quando alguém nos pede para colocarmos um livro na montra, regressando ao que interessa, está a encurralar-nos. É óbvio que é difícil dizer que não. E é também óbvio que, caso não o façamos, corremos o risco que essa pessoa não queira voltar a cá entrar. E se isso acontece, estamos os dois encurralados - nós e a pessoa que fez o pedido, que irá sentir-se desconsiderada por nós. O que não faz sentido nenhum. Tendo em conta que a livraria tem uma identidade é preciso respeitar os critérios que desde sempre foram usados. Basta olhar para as nossas montras para perceber que damos destaque essencialmente a livros de arte, ensaio e literatura (sobretudo poesia e romance). É claro que há espaço para outras coisas. Mas há um ponto fundamental: são livros pelos quais estamos apaixonados. E este critério não pode ser substituído por outro.

Se não fazemos montras por dinheiro, querendo com isto dizer que não somos comissionistas de qualquer editora, e se fazer dinheiro seria uma forte motivação para uma livraria pequena que passa os seus maus bocados, não vamos abdicar do nosso critério pessoal - o que nos resta quando já não nos resta nada - apenas para não ferir a susceptibilidade de um autor. É preciso que o autor compreenda que a necessidade que tem de ver o seu livro vendido não é mais importante que a necessidade que a livraria tem de ser fiel àquilo em que acredita. Assim, se eu me apaixonar por um livro, até posso nunca chegar a colocá-lo neste blogue mas certamente falarei dele a todos os que entrarem. E o autor, na expectativa da visibilidade, esquece-se de uma coisa muito mais importante hoje em dia: a confiança. A confiança no trabalho dos livreiros a quem terá entregue os seus livros.

Nesta livraria não se dá destaque a livros só porque sim. Nós trabalhamos com tempo - porque a leitura é um gesto de tempo. E acho que com isto já se esclarecem algumas dúvidas.