segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

há aqui qualquer coisa que me faz pensar que o mundo não tem mudado assim tanto

Quinta-feira [25 de Setembro de 1941], 9 horas.



«Sim, nós mulheres, nós tontas, idiotas mulheres sem lógica, procuramos o Paraíso e o Absoluto. E no entanto o meu cérebro diz-me, o meu excelente, funcional cérebro, que não existe nada absoluto, que tudo é relativo e infinitamente cheio de nuances e em eterno movimento e, exactamente por isso, tão interessante e encantador, mas também tão doloroso. Nós mulheres queremos eternizar-nos no homem. Acontece do seguinte modo: quero que ele me diga: «Querida, és a única de todas e amar-te-ei eternamente.» Isto é ficção. E enquanto ele não disser estas palavras, tudo o resto não importa, o resto escapa à minha atenção. E é isso que é esquisito: não o quero de maneira alguma, nunca haveria de ser o único e de eu o querer eternamente, contudo exijo isso ao outro. Será pois por isso que eu, exactamente por não ser capaz de amar em absoluto, faço essa exigência a um outro? E que consequentemente desejo sempre uma mesma intensidade da parte do outro, sabendo eu porém, sabendo por mim mesma, que tal não existe? Mas assim que noto no outro uma diminuição temporária, ponho-me em fuga, naturalmente que isso surge acompanhado por um sentimento de inferioridade, do género: já que não o consigo fazer interessar-se por mim, já que ele não me deseja com um ardor constante, então népia. E é tão estupidamente ilógico, tenho de extirpar isso de dentro de mim. A verdade é que eu não saberia o que fazer se alguém incessantemente me desejasse com todo o ardor. Isso ser-me-ia penoso e aborrecer-me-ia, e iria fazer-me sentir privada de liberdade. Ó Etty, Etty.»

Diário, Etty Hillesum, Assírio&Alvim, trad. Maria Leonor Raven-Gomes, 2009 (3ªed.)