sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

estás a brincar com a chuva

outra mulher, abrigada da chuva, à porta. fica ali, enquanto eu fico aqui. um homem desce a toda a velocidade com um chapéu de chuva aberto e pesca-a. desapareceram.

falar de um evento deste tipo (mulher do outro lado da montra, de costas, a olhar para cima, decide voltar a descer a rua) é falar da intimidade, é contar um segredo: é para isto que eu olho, é isto que eu vejo.

como a conversa que tive há pouco sobre o impacto de um determinado livro em mim, há coisas que me parecem muito mais profundas do que a narrativa literal de uma vida. quando digo: este livro afectou-me profundamente estou a despir-me e a explicar: é aqui que dói. estou ligada a pessoas cuja biografia pouco me interessa, pessoas com quem falo apenas sobre leituras e que, através dessa cumplicidade, desejo possuir. nada disto tem corpo ou, se o tiver, é aquele corpo da palavra, fininho, sobre o papel. o leitor a quem me dou, é meu. levo-o para casa, ou para Zurique, amanhã de manhã, ando com ele de um lado para o outro, guardo coisas para lhe dizer, da próxima e sempre inesperada vez. tudo isto me dá muito prazer, também porque não me exige nada. vender livros é tocar no outro. o meu trabalho é tocar no outro e deixar-me tocar pelo outro. é por isso que vender livros não é o mesmo que vender batatas

porque quando vendo um livro estou a vender-me a mim.