quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Je ne mange pas de ce pain-là



"De Mário Cesariny para o poeta Jorge de Sena:«Meu caro Jorge de Sena / Recebida a sua carta-circular onde me anuncia estar eu incluído no terceiro volume das Líricas Portuguesas por si, Jorge de Sena, organizado, mas ainda, felizmente, em preparação, venho dizer-lhe que será de meu total desagrado a efectivação de tal anúncio, pelo que muito lhe peço e recomendo me não faça participar do vosso ramalhete dos talentos. Como sabe, esteja eu certo, esteja errado - não é para discutir - são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional. Se não lhe faz um transtorno por aí além, prefiro solitário o meu próprio detrito - evola-se muito mais depressa sem acumulação por monturo nos terrenos baldios da capital. Creio, aliás, e isto é uma resposta à sua proposta de sugestões, que: antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer. / Da inclusão do meu camarada António Maria Lisboa falará, como é óbvio, a sua própria obra.
Pela parte que me toca no assunto, fecho-o com uma pergunta: será possível que você, Jorge de Sena, a ter lido o que o António Maria Lisboa publicou, pense, presencisticamente, em incluí-lo, cadáver, poemas, ossos, tudo, em banquete tão sociedade de recreio e tão concomitante gracinha do meio editorial português?
J. de S. não só inclui os poetas em questão como lhes estabelece fichas biobibliográficas tão retorcidas como a cabeça dele."


-"A Intervenção Surrealista" - Mário Cesariny