quarta-feira, 9 de março de 2011

crimes exemplares

"No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.

Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.

Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez... mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.

Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.

"Precisamos nos falar por dois minutos", ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: "Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir". Não me deixou pensar, foi rápido: "Por que não tomamos um café?" Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: "Você sabe no que estou pensando". Não podia negar que sabia: "É claro, no livro do Oswaldo Cruz".

Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.

Não adoçou as palavras: "Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu". Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: "Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me diziar". Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um "grande crítico". Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emperstam uma grandeza que não tinham.

Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: "Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também". É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: "Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos".

Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.

"Você tira um elefante de minhas costas", consegui, enfim, dizer. "Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava". Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: "A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita". Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos."

o resto do texto de José Castello pode ser lido aqui