segunda-feira, 7 de março de 2011

João Miguel Fernandes Jorge, quando passava pela Trama

LARGO DO RATO

Num fato-macaco em tempos azul
apanhava o 15 para o Cais do Sodré.
Gestos e palavras de acordo no bater
do seu coração.

Dizia-se, num pequeno café da Alvares
Cabral, ser o seu coração artéria tão
confusa como o Largo do Rato.

Batia ao compasso da Escola Politécnica
arrítmico para os lados de S. Filipe
Néry.

Tinha outros dias tinha outras vozes
a chuva caía e a brisa, a mais ligeira,
corria D. João V entre flores e varandas
festas de inverno, velhos hábitos.

Fazia horas num banco das Amoreiras.
Passam estrelas e as coisas da vida
fazem o circuito S. Bento-Gomes Freire.

Sombria é a manhã sob os seus olhos
os que chegam neste eléctrico os que
partem sob as árvores.

Rua do Sol ao Rato. Rápidos passos.
É o trágico dos túmulos de S. Mamede
leva a máscara caindo de
um ombro,

a escura cabeça perdeu-a há muito
e o fato-macaco que fora azul,
marca de água.

(de O Regresso dos Remadores, editorial Presença, 1982)