segunda-feira, 28 de março de 2011

ninguém sabe que eu não moro cá

Escusado será explicar que nem sempre é possível uma pessoa morrer. Eu rezei muitas vezes para que um carro me passasse por cima e, confesso, ainda hoje, em certos dias, ando pelas ruas com a secreta esperança de que algo muito trágico aconteça. Alguém poderá dizer que seria mais eficiente que, em vez de alimentar este sonho, eu poderia subir a uma ponte e pura e simplesmente saltar. Mas nem sempre é possível uma pessoa morrer, assim, porque quer. É preciso que seja natural, isto é, que a culpa seja da vida e não de alguém, vivo ou morto, a quem se possa apontar o dedo. Então as pessoas diriam: ela não merecia isto. Ou: era tão nova, tinha tanto pela frente.
Mas tudo isto, meus senhores, não é completamente verdade. É que é preciso que ninguém tenha culpa para que todos possam ter culpa. No fundo, faltando amor, que haja ao menos pena, faltando corpo, que sobre um pouco de saudade. Morrer seria a minha forma de chamar a atenção, de uma vez por todas, e agora, percebes? diria eu, deitada no asfalto, morta de contentamento. Mas não há maneira, pronto, é preciso que isto fique claro: nem toda a gente pode morrer. Eu, pessoalmente, agora não posso.