sábado, 12 de março de 2011

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Não sei em que gaveta se deve guardar o que nunca terá perdão. Suponho que haja formas de seguir em frente - por exemplo, apagando um número de telefone, evitando certas ruas, fingindo que uma ou outra página não só não existem como, na verdade, nunca existiram. Outra ideia: negando a crença antiga, o amor passado, a performance desempenhada, isto é, dizendo que aquilo que na altura vivemos não era bem o que pensávamos estar a viver, mas outra coisa, diversa, que só agora entendemos. A perspectiva está na origem da crença e não há um lugar seguro de onde avistar os navios. Um juízo forte pode ter por base essa coisa que chamamos de Razão, mas pode, pelo contrário, vir de uma intuição de outro lado do mundo. Para encontrar algum equilíbrio, tenho que intercalar Musil com Artaud. Não aguento com o peso de uma visão justa se não puder estar também por detrás dos olhos de um louco.
Para me livrar daquilo que não tem perdão li, ainda sem o saber, o diário da Etty Hillesum. Nesses dias visionários não só perdoei como dei graças a tudo quanto compõe a minha pequena história. Digo pequena não por motivos de duração mas sim porque o é, efectivamente, na história do mundo. E num momento de fervor vi-me de cima, fui subindo, de olhos postos numa noite qualquer, afastei-me da terra, desviei-me dos astros nomeáveis, cheguei até onde não há nada que conheçamos, e quando olhei para baixo eu já não existia. E se eu não existo, se tudo isto, à luz do porvir, não é nada, então o perdão também não existe - o mal nunca foi uma coisa pessoal, os meus arqui-inimigos nunca o foram, realmente, se não na minha cabeça (agulha), não existe o pai, a violência silenciosa de uma cidade do interior, a solidão da maternidade, a traição, o erro estratégico em loop.