sábado, 30 de abril de 2011

Movimentos no Escuro


Cenas de um Casamento - Ingmar Bergman (1973)

Era no tempo em que existia televisão em Portugal.
Fascínio e desconforto estremeciam connosco,
no centro da sala, diante d'O Sul de Victor Erice,
de Fountainhead, ou Mahabharata. Nessas horas
tiradas ao sono, à indiferença, crescíamos juntos,
e a nossa relação fortalecia-se em temíveis escrutínios.

O primeiro, bem me lembro, foi um ciclo de Godards
armadilhados, entre golpes de desprezo e um aviso:
atenção à direita. Outro: cinco noites de atenção
religiosa, quase imóveis, mão a mão, sob o feitiço
visual de duros golpes japoneses - Kinugasa,
Kobayashi, Mikio Naruse - com as palavras,
no final, a prolongarem-se entre nós como tirantes
de sentido, num jogo semelhante ao do prazer,
em que ganham os dois lados do enleio.

Se não tivesse o nosso amor sobrevivido à pocilga
dos tempos modernos, ao sangue dos malditos,
numa ronda de obscuros objectos de desejo,
seria como se vivêssemos na rua da vergonha,
em zeloso sacrifício. Irmãos de Nosferatu.
Não haveria para nós nenhum futuro radioso:
não teríamos Manhattan, Casablanca, nem o oiro
de Nápoles. E nossas não seriam todas as manhãs
do mundo, com a vida numa corda, musical.
Manhãs em que me acordas, como hoje,
com um «beija-me, idiota». E toda a terra treme.



Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.


José Miguel Silva, Movimentos no Escuro