segunda-feira, 7 de novembro de 2011

ALEXANDRA LEAVING / ALEXANDRA LOST

Vim sentar-me n’O Lírio como em tempos
me sentei nas esplanadas da Albisriederplatz.
Não há aqui menos estrangeiros nem eu

me sinto menos só. Na igreja de São Domingos
rezavam a missa: Ich bin der Weg, die Wahrheit
und das Leben; alheios a isto, um homem

transporta cervejas Sagres para a tasquinha
A Sacristia e mulheres de lenço cruzam-se
no pronto-a-vestir Gao Jinyuan. Lisboa.

Não podia estar mais feliz do que neste snack
bar onde nem o acento grave, como é tão habitual
na nossa restauração, se fez substituir pelo agudo:

cozido à portuguesa
vinho branco à pressão
hà sopa da pedra

E não importa o postal Fábrica dos Produtos Coração
que não cheguei a enviar, nem importam os tão mal
remunerados trabalhos do amor, nada disso que

não pude concluir, as aulas de ballet, o curso de piano
ou o plano de recuperação da mãe. Distribuo cigarros,
não me furto aos cinco cêntimos (são p’ra comer)

e reparo, antes de abandonar a cena rumo à Praça
dos Restauradores, num anúncio que me tinha passado
despercebido: hà rapariga sem nada a perder.