terça-feira, 29 de novembro de 2011

sabes quando estás a escrever uma coisa e de repente percebes que não, não era nada por aí que querias ir?

Deitei-me deviam ser umas onze da manhã, incapaz de dormir. É isto que me acontece quando tenho tempo livre, porque o tempo não é de borla, e eu tenho remorsos. Em sequência, a lista de fenómenos que formam um dia (apenas um) na vida desta pessoa: conversa à mesa da cozinha; conversa em banco de jardim numa das avenidas novas; aquisição de um livro; leitura e redacção de diversos numa esplanada; petite guerra doméstica e telefonema. Como é óbvio, a chave vem por último, neste telefonema (são assim, os efeitos-surpresa da escrita). Quem me ligou foi uma mulher que completará, em Fevereiro próximo, oitenta e oito anos, mulher que, na hierarquia familiar, me vai à frente em duas gerações. Não se trata aqui de cordelinhos ou poderios mas só de alívio, já que, entre ela e o eu que escreve, o karma teve oportunidade de melhorar por duas vezes. Eu sou a terceira. Ligou a fingir que não sabia de mim, como finge que não ouve (alô? alô?) quando a conversa desconversa. Eu, que no setenta e três dou sempre o lugar à primeira velhinha que aparece – que não dou aos velhinhos, que à partida não merecem, porque são homens, e isso não abona a favor de ninguém – com a minha avó, aquela que me dizia, depois de me limpar o rabo, que «parir é dor, criar é amor», acabo sempre a fingir que a ligação caiu, pipipipi, que é o mesmo que enfiar a cara no livro quando entra o tipo de muletas (no setenta e três), isto é, uma indecência.